Este pequeno texto pretende assinalar que a interferência sonora em volume abusivo na vida do cidadão comum parece ter atingido índices intoleráveis na Cidade do Salvador, apesar de todas as legislações surgidas para contê-la e ainda tentar agrupar num mesmo artigo a grande diversidade de questões acerca do assunto.
As fontes sonoras que mais causam inquietação em diferentes grupos de residentes em Salvador são: estabelecimentos comerciais, na maioria bares; carros particulares dotados de sonorização poderosa; instituições religiosas; pessoas comuns em uso de aparelhos residenciais; pessoas comuns em uso de celulares em ambiente público.
Para cada um desses grupos existe uma legislação específica e também uma argumentação moral, no que compete á consciência de cada cidadão. Bares e casa de eventos têm que investir em revestimento acústico, ou seja, aplicar dinheiro, para realizar música ao volume do que seus clientes apreciam. Proprietários de automóveis que sofrem de um desejo incontrolável de compartilhar seu gosto musical devem procurar um psicanalista e, ao mesmo tempo, se submeter a uma lei que já existe. As instituições religiosas que propagam a salvação em altos decibéis deveriam se lembrar que na Bíblia não existe um só momento em que Jesus tenha alterado a sua voz. O que se presume é que Ele falava em mansa voz, e que “quem tenha ouvidos que ouça”.
O uso residencial de aparelhos de som tem causado conflitos sérios entre vizinhos. Muitas vezes um só morador incômodo perturba a vida de um conjunto habitacional inteiro. Em São Paulo, por exemplo, uma queixa dessa natureza pode atrair a polícia de imediato. A popularização recente de aparelhos celulares que tocam música em alto volume gerou outro tipo de incômodo: alguém, em um ônibus lotado, decide ligar seu som de preferência e todos têm que pagar por isso.
O resultado do estado de coisas a que se chegou em Salvador é que em um mesmo momento, num bairro popular qualquer, se ouve, num grande êxtase, uma mistura de sons que agrupa três ou mais fontes sonoras abusivas e o resultado é algo parecido com:
“Estou carente do seu amor”... “toma negona”...”aleluia”... “ mexe o rabinho cachorra”... - tudo ao mesmo tempo. Dito isto, gostaria ainda de fazer algumas considerações, para eliminar o risco de ser mal compreendido:
- não se trata de preconceito intelectual, pois alguém ouvindo Tom Jobim em volume abusivo incomodaria do mesmo jeito, mas as pessoas que ouvem Jobim naturalmente têm “desconfiômetro”.
- aos patrões que só pensam em produtividade, digo que muitos dos seus funcionários não rendem o que gostariam porque não repousam adequadamente em seus lares e, no longo trajeto de ônibus até o trabalho, ao invés de cochilarem são incomodados por um celular abusivo.
- Aos pedagogos e líderes de projetos sociais de resgate à infância e juventude, digo que basta uma só letra de uma composição dessas (como ocorre no funk carioca) para por-a- perder tudo que foi dito em sala de aula sobre integridade, respeito e consciência afetiva. Estou falando agora de uma auto-estima que qualquer pessoa deve ter, não sobre falso moralismo. Desejo que a minha filha, no futuro, tenha um namorado, e que ele não a chame de cachorra!
Enfim, devido às emergências de outra ordem que exigem atenção maior das polícias, devido ao mal-maior de ter um vizinho odioso, devido à própria consciência individual de solidão e fragilidade, o fato é que em Salvador vivemos um grande êxtase, uma grande farra, de poluição sonora, de abuso sonoro a todos os níveis. Como a grande maioria do que se propaga a alto volume é música, eu chego a ter vergonha de ser músico, de ser essa mesma matéria que pratico, e da qual me sustento, a fonte dos males.
Penso que um esforço para remediar a situação deveria envolver a Prefeitura, e seu órgão fiscalizador, a Sucom, no caso dos estabelecimentos. As polícias, no caso dos automóveis e particulares residenciais. E também a Secretaria de Saúde, municipal e estadual, para esclarecer o grande mal que a poluição sonora causa sobre as pessoas. E finalmente as sociedades psicanalíticas, os departamentos de psicanálise das universidades, que deverão se por a campo, se expor ao sol das ruas, para demover dos musculosos poluidores de bairro que seus problemas afetivos e de afirmação devem ser resolvidos a foro íntimo, antes de gastarem dinheiro em potente aparelhagem somente para compartilhar a todos uma problemática que é, inteiramente, particular.
Nenhum comentário:
Postar um comentário