Homenagem ao dia das mães

Homenagem ao dia das mães
Fred Dantas e orquestra - Pelourinho/Ba-Maio/2011

quinta-feira, 19 de maio de 2011

O que fizeram nossos avós?

Nosso assunto inicial se refere às filarmônicas. Como adjetivo, a palavra qualifica qualquer grupo musical organizado em estatutos e que não tenha o lucro como objetivo; assim, uma orquestra filarmônica é uma orquestra em que os músicos tocam por prazer ou por alguma causa social. Uma banda filarmônica é uma banda de música de iguais características. Só que, tornado substantivo, o termo "filarmônica" se refere a um conjunto musical específico, formado por instrumentos de sopro e percussão, típico das cidades brasileiras mas também encontrada com características iguais em países europeus como França, Alemanha e Espanha.

"O que fizeram nossos avós das bandas filarmônicas" equivale a perguntar: além do tocar bem ou não, de realizarem as tocatas com sucesso, o que haveria de existir em uma cultura de filarmônica que justificasse uma atenção devotada? Digo que condições favoráveis permitiram a músicos notáveis organizarem um pensamento próprio e importante, gerando peças de rara beleza que permanecem, grande parte, sem serem editadas e correndo o risco de se perderem para sempre.

Há notícias de sociedades filarmônicas documentadas desde 1802, mas desde 1600 os viajantes já descrevem conjuntos de instrumentos de sopro chamados terços ou ternos (não por serem integrados por três músicos, mas por possuírem metais, madeiras e percussão) nas primeiras povoações brasileiras. A partir de 1808 o Brasil passou a ser, de fato um país. Antes éramos apenas uma colônia sem direito a nada, onde se plantava algodão mas se proibia de fazer o pano. Quando rei de Portugal e sua administração, pressionados por Napoleão, fugiram para cá, vieram também os melhores artistas e a tal Banda da Armada Real, que causou espécie. Fundou-se uma nova fase na música militar, e as sociedades musicais, que já existiam, em grande parte ligadas a irmandades religiosas, sentiram o impacto de um mundo que se modernizava.

Nas cidades maiores surgiram orquestras cujos instrumentos de arco tiveram não só bons executantes e maestros, mas também novas composições, assim como ocorreu com os teclados; foram, no entanto, os instrumentos de sopro que melhor se adaptaram às necessidades da música no Brasil de então. É música de locomoção, feita em instrumentos que, em certos casos, podem tomar sol ou chuva.

Assim como a vida pública não mais voltou a ser a mesma após o retorno da Família Real, as corporações musicais não mais deixaram de tocar as novas marchas militares e fantasias concertantes que haviam chegado; melhor, passaram a gerar compositores que supriam novas necessidades de concerto e festa. Aí entra o trabalho dos nossos avós.

Os mais antigos, como aqui na Bahia João Mariano Sobral e o maestro Santa Isabel, dedicavam-se a criar as “harmonias”, ou seja, adaptavam para banda de música partituras de trechos de ópera bastante conhecidas. Os arquivos da bandas civis em todo o Brasil possuem esse tipo de arranjo, feitos por muitos músicos cultos que existiam nas cidades de tradição.

Na Bahia, na rica e movimentada Cachoeira do final do século XIX, região do Recôncavo, um vulto como Manuel Tranquillino Bastos dá origem a um pensamento diferente. Examinando seu grande arquivo, vamos acompanhando como ele aprendia enquanto atuava como copista e adaptador de trechos de J.S. Bach, de Verdi e de velhas marchas prussianas. E surgem composições como O Navio Negreiro, a polaca Roza de Maio ou a Airosa Passeiata, pura música brasileira no mais rigoroso estilo de instrumentação filarmônica.

A geração seguinte, antecipada um pouco antes, entre 1910 e 1930 na cidade de Maragogipe, por Heráclio Paraguassu Guerreiro e Antonino Manoel do Espírito Santo, estabeleceu de vez um estilo regional ao usar o chamado “tangado” (hoje seria “sambado”) em suas composições, criando dobrados que nunca mais serviriam para uma marcha militar, tal o emprego de firulas, ornamentações, interrupções e, sobretudo, o uso da síncope. Esse é o estilo de Amando Nobre e Estevam Moura, a notável dupla dinâmica da música baiana dos anos 1930-1940.

Depois da segunda guerra vieram o rádio e a grande influência das orquestras americanas, que deixaram as bandas numa situação de “coisa antiga”. Depois veio o iê iê iê com guitarras e teclados que praticamente obrigavam o jovem a se adequar “aquilo”. Depois veio a televisão e uma busca sem limites pela notoriedade e lucro. Se as bandas sobreviveram, foi para que chegassem a esse momento, quando todas as ilusões já foram postas à mesa, oferecendo o exemplo dos nossos avós, que criaram uma nova música para suas comunidades, que acreditaram em princípios morais e de fraternidade sincera, que tinham a música como algo muito importante e sagrado.

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